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Crise e mudança: quais competências os jovens precisarão para o "novo normal"?

Guilherme Costa e Maria Cláudia Tardin Pinheiro*


A pandemia de Covid-19 nos colocou diante de um cenário de incertezas. Online, encontramos textos, vídeos e lives discutindo como será o "novo normal". As editoras têm lançado livros que discutem o amanhã, como "A cruel pedagogia do vírus", do pensador português Boaventura de Souza Santos, ou "O amanhã não está à venda", do pensador indígena Ailton Krenak. O psicanalista Christian Dunker publicou "A arte da quarentena para principiantes", refletindo, à luz da psicanálise, o momento que estamos vivendo.


Entre tantas reflexões nos propusemos a pensar sobre as competências técnicas e profissionais que os jovens precisarão desenvolver para enfrentar o ambiente profissional e as novas dinâmicas sociais que se colocarão em um cenário pós-pandemia. Será que apenas uma capacidade técnica, proveniente de uma boa formação acadêmica, irá assegurar um lugar ao sol no (ainda mais) disputado mercado de trabalho?

Esta emergência em saúde pública deixou explícitas as desigualdades existentes no Brasil e os desafios para enfrentá-las. Na nossa perspectiva, entendemos que ela também reforçou a urgência em agirmos para alcançar as metas do ODS 4, da Agenda 2030, das Nações Unidas, que traça diretrizes para assegurar uma educação de qualidade, elemento chave para o desenvolvimento sustentável.


Uma das sete metas previstas no ODS 4 visa, "até 2030, aumentar substancialmente o número de jovens e adultos que tenham habilidades relevantes, inclusive competências técnicas e profissionais, para emprego, trabalho decente e empreendedorismo". Ou seja, fala-se aqui em formar jovens e adultos aptos a atuarem no mercado de trabalho e para empreender, o que, no cenário em que nos encontramos, parece-nos primordial diante de uma retração de postos de trabalho.


Neste contexto, entendemos que além das capacidades analíticas e do conhecimento técnico, há uma urgente necessidade de nos atentarmos para o gerenciamento da vida interior e da comunicação interpessoal, afinal, como nos lembra o psicanalista Christopher Dejours, trabalhar é também viver junto, e por isso é preciso que nos disponibilizemos a olhar para dentro e observar a coerência ou as contradições entre o que fazemos, o que sentimos, com as nossas falas.


Muitas vezes é difícil para nós termos consciência desse mundo interior quando o nosso pensamento não está acostumado a confrontar nossas ações com nossa fala, sentimentos e impulsividade. Esse confronto pode mostrar nossas incoerências que representam a vivência de conflitos, que produzem ansiedades e medos. Quanto menos nos percebemos em tensão, mais ficamos divididos entre, por um lado, a pressão de nossos desejos e fantasias e, por outro, as pressões sociais e as cobranças morais e de ideais que fazemos a nós mesmos.


Como não temos certeza nenhuma e nem garantias se iremos encontrar na realidade o que queremos, temos a tendência de fugir da consciência sobre a possibilidade da frustração, caso essas expectativas não se realizem. Por outro lado, esse contato interno aumenta a certeza do que desejamos realizar, e com isso, podemos produzir coragem e autoconfiança para enfrentar nosso caminho.


Quando fugimos do autoconhecimento e não queremos lidar com esse universo interno, passamos a reproduzir as descrições dos problemas e os ideais culturais que nos foram transmitidos, com a ilusão de que estamos sendo autônomos e o mal-estar sentido é, em geral, atribuído ao mundo externo ou à nossa insignificância.


O grande desafio em nossa formação, desde crianças é o aprendizado de encarar ou perceber as incertezas da vida, diminuindo o apego às expectativas e, com isso, compreendermos a complexidade de nosso universo interno, que tem uma turbulência contínua e que exige muito trabalho para lidar com nossos desejos, julgamentos morais, os ideais que tomamos como nossos e as pressões externas.


Esse caminho é trabalhoso e, por isso, sentimos angústia e ansiedade. É complexo viver no confronto sensível do pensar e perceber o que sentimos, desejamos e fazemos. É tarefa para seres corajosos que investem seu tempo em observar, compreender, refletir, planejar, dialogar e aprender continuamente, com muita humildade e empatia pelos demais, que exercem a sua autoridade ao se expressar, e não o autoritarismo de querer impor sua ideologia aos outros.

Quando aprendemos a lidar com as incertezas e a respeitá-las como parte da transformação contínua da vida, a gente auxilia os outros a lidarem com a realidade e a terem coragem de agir para o bem comum, promovendo a colaboração no ambiente de trabalho, por exemplo, uma necessidade urgente para esse cenário de trabalho remoto e de empreendedorismo que passamos a nos defrontar na pandemia.


Trabalhar a comunicação consigo mesmo e com o outro é fundamental em um cenário de crise. No geral, temos a tendência a não notar a incoerência entre o que falamos, como expressamos nossos sentimentos no tom de voz, nossos pensamentos contraditórios nas palavras que escolhemos, assim como na linguagem não verbal que é expressa e nas nossas ações (muitas vezes impulsivas). E é neste ponto que surgem as dificuldades de relacionamento no ambiente de trabalho.


Além desta escuta de si, é necessário que a gente reforce - um movimento que já vinha sendo fortalecido pré-pandemia - a nossa escuta do outro. A cultura do "cancelamento" e dos discursos de ódio que encontramos nas redes sociais revelam uma dificuldade em lidar com o diferente, em especial quando este ocupa um lugar diametralmente oposto ao nosso.


A diferença do outro só nos incomoda emocionalmente quando não toleramos nossas contradições. Nesse momento, projetamos o nosso mal-estar no outro e o acusamos de ser o responsável pelo nosso sofrimento. Ocupamos aí uma posição passiva mentalmente e sentimos raiva ou mágoa, por mais que ataquemos o outro com palavras ou ações.


A projeção é o mecanismo inconsciente de pensar que nos leva a nos defender da percepção que temos responsabilidade no que sentimos. Se a ação do outro nos leva a ficar frustrados, magoados, ou com raiva, isso significa que há também conflitos (contradições) entre nossos valores e desejos, como querer e não querer algo, amar e odiar a mesma coisa. O que é algo muito comum de nos acontecer. Segundo Freud, o nosso psiquismo está, em geral, em um estado de tensão porque é dividido em sistemas que têm leis de funcionamento e objetivos diferentes e que, geralmente, entram em conflito uns com os outros. É inevitável sentir alguma tensão ou ansiedade, pois a nossa mente vive de antagonismos.


É preciso, portanto, aprendermos a compreender o conflito, qualquer que seja o seu grau, e a fazer negociações internas e externas. Essa é a grande competência que se faz necessária em um mundo cada vez mais complexo, cheio de informações e demandas e que estimula, em contrapartida, a incessante fruição da vida. Com essa competência de administração de conflitos inconscientes e conscientes poderemos modificá-los em alguns aspectos.


Os cenários de crise tendem a fragilizar a comunicação interpessoal que, por sua vez, enfraquece o espírito de coletividade, reforçando comportamentos individualistas, colocando em xeque a coesão social. O "nós" pode se fragilizar numa situação de crise e se percebe uma acentuação do individualismo. Queremos falar e ser ouvidos, mas pouco estamos dispostos a ouvir e colaborar em prol de um objetivo comum.


Esta lógica serve para o ambiente de trabalho, serve para outras dinâmicas sociais. Alguns autores contemporâneos que pensam o regime democrático como Jacques Rancière, Carole Pateman ou ainda Benjamin Barber nos lembram que a democracia se faz na diferença. É na capacidade de dialogar com o outro, ocupando o espaço público e fazendo uso da nossa fala, ouvindo a dos demais e percebendo os pontos em comum, que construímos os valores democráticos que são, entre outros elementos, sustentação deste regime.


Contudo, o cenário de crise sanitária (que, no caso brasileiro se conjuga com uma crise econômica e política) que vivemos atualmente, é - como toda crise - uma oportunidade de revermos nossos comportamentos e entendimentos de mundo. Uma crise carrega consigo a vontade de sair deste estado, que pode levar à mudança do antigo padrão. Seguindo esse raciocínio, para que lugar desejamos ir?


*Guilherme Costa é doutor em Psicologia. Professor da ESPM Rio e pesquisador do do cRio, o Think Tank da ESPM Rio e do Laboratório de Pesquisa em Práticas Sustentáveis (Re_Lab).


*Maria Cláudia Tardin Pinheiro é doutora em Psicologia, psicóloga clínica e Professora da ESPM Rio, coordenadora do PAPO (Programa de Acolhimento Psicológico e Orientação), do PIPA (Programa de Intervenção Pedagógica no Aprendizado) e do Carreira (Orientação de Carreira) da ESPM Rio.

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