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Do que podemos sentir falta?

Atualizado: Jun 4

A pesquisadora Ana Erthal, do cRio, o think tank da ESPM, realizou uma pesquisa, entre os dias 12 e 21 de abril, para mostrar do que os cariocas estão sentindo mais falta nesse período de isolamento social. A maior parte dos entrevistados – 80% - afirmaram que adoram viver, morar e trabalhar no Rio e estão com saudade de lugares e momentos de suas rotinas antes de a pandemia começar. Entre as citações do que mais sentem faltam estão contemplar o verde da natureza, o burburinho dos bares e botequins e o movimento de pessoas. Ana Erthal, que pesquisa sensorialidades há muitos anos, ressalta que, na verdade, as pessoas não percebem os estímulos sensoriais no cotidiano delas. O confinamento valoriza esses estímulos. O carioca está abstêmio do que a cidade oferece de melhor. A pesquisadora acha que a tendência é valorizar mais essas paisagens, momentos e vivências depois que o isolamento acabar. Sobre o comportamento social dos cariocas, ela ainda não sabe se o padrão informal será mantido. Mais de 80% dos entrevistados disseram sentir falta dos abraços dos amigos e parentes e 69% declararam estar com saudade de tocar as mãos de pais e avós. Só o futuro dirá se tais práticas serão retomadas.

cRio: Professora Ana Erthal, na sua opinião, o que chamou mais atenção nos resultados, após sua experiência realizando pesquisas durante tantos anos?

Nesses 14 anos pesquisando as sensorialidades, o que sempre chama atenção é como as pessoas não percebem os estímulos sensoriais cotidianos, como têm os sentidos tão assediados diariamente sem dedicarem atenção a esses estímulos. Nesta pesquisa, fica evidente que os estímulos sensoriais urbanos são valorizados devido ao confinamento, à saudade que o carioca está sentido das ruas e do movimento da metrópole. Porque está abstêmio da água do mar, do chope gelado, do pãozinho da padaria... quando a pesquisa pergunta sobre os elementos que ele sente falta, ele atribui uma intensidade afetiva: muita falta, indiferente ou nenhuma falta.

cRio: Qual a sua motivação, como pesquisadora, para explorar a relação dos cariocas com estímulos sensoriais durante a pandemia?

O Rio de Janeiro tem uma relação afetiva diferenciada com seus moradores. Há um "orgulho" em ser nascido, ser morador ou visitante frequente da cidade. Isso fica evidente quando a maioria responde na pesquisa que "ama", viver, trabalhar e morar aqui. A motivação partiu da uma ideia advinda da psicologia espacial sobre a "fome sensorial", que resulta da insuficiência dos estímulos percebidos por pessoas isoladas sensorialmente.

cRio: Na sua opinião, o carioca, ao se dar conta de tudo que ele sente falta, passará a ter uma outra relação com a cidade após a pandemia? Ele passará a valorizar, no cotidiano, o que , na correria de antes, passava despercebido? O que será mais valorizado?

Existe sempre uma esperança de que situações limite ou de choque provoquem o que há de melhor em termos de sentimentos e atitudes nas pessoas. Minha avó costuma dizer que só damos valor quando perdemos alguma coisa - e as recuperamos. Quando pudermos voltar a circular, quando pudermos voltar aos nossos postos de trabalho, a conviver com os transportes públicos, a sentir o mar e a areia nos nossos pés, talvez possamos dar mais valor e cuidar melhor do que a cidade sempre nos ofereceu.

cRio: Os resultados mostraram que a saudade do "verde"(62%) é maior do que a saudade do mar (34%), numa cidade onde a praia é a principal referência de lazer. Há uma explicação para isso?

As saudades do mar aparecem numa perspectiva interessante na pesquisa: ao mesmo tempo em que sentem falta do contato com o mar e a areia, os cariocas não têm saudades das praias lotadas. Talvez seja esse o contraste. O verde pode ter uma conotação contemplativa: o que pode ver sem ter que disputar por lugar. A pesquisa solicitou aos respondentes dados para as próximas etapas. Acredito que esse ponto pode ser melhor respondido nessa sequência da pesquisa.

cRio: Em outros países, especialistas têm afirmado que após a pandemia haverá mais cuidado com o contato físico, que o mesmo será mais evitado e que haverá mais rigor na aproximação entre pessoas. Após ver que 84% dos cariocas ouvidos na pesquisa disseram sentir falta "do abraço dos amigos e parentes", será que essa mudança social ocorrerá no Rio?

O tato sempre foi o sentido mais negligenciado em termos históricos. Ele é o lugar da doença, da intimidade, da erotização. No século XVIII havia cartilhas escolares para pais com textos que incentivavam o distanciamento entre os filhos para que não fossem muito tocados: o acolhimento era tido como fraqueza, deixava as crianças "mimadas demais". Apesar de ser "vilão" novamente na pandemia de Covid-19, já se sabe que o olfato tem o mesmo papel de transmissão, uma vez que o vírus é mais leve do que o ar e pode permanecer algumas horas em ambientes como elevadores, por exemplo. Porém, por sua historicidade, é o tato que vira o algoz. O carioca é especialmente um sujeito que tem em sua cultura o toque. Talvez ele se acostume às máscaras, mas é questionável se vai deixar de abraçar.

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