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O amor em ação em tempos de coronavírus no Brasil

Atualizado: Mai 20

Isabela Souza*


“Uma quarentena de direitos para as favelas e periferias!” foi a súplica de Jorge Barbosa, geógrafo, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e fundador do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro, em texto publicado no último dia 20 de março, no site do Observatório de Favelas. Desde lá, essa frase não sai da minha cabeça e é um dos mantras que têm me mobilizado na luta diária para fazer do meu período de isolamento físico um tempo de busca de significância, de estar engajada em coletividade, em ações e reflexões, no contexto do enfrentamento do coronavírus, a partir e para, principalmente, moradoras/es de favelas e periferias. Sobre isso, o Jorge Barbosa diz:


Ficar em casa. Reduzir contatos pessoais. Exercer o trabalho remoto. Não circular pelas ruas, lojas, bares. Fechar os estádios de futebol. Proteger a si e aos seus familiares do contágio imediato é, sem dúvida, um recurso para muitos, porém não para todos. Há trabalhadoras e trabalhadores cujas condições sociais e urbanas são por demais vulnerabilizadoras de seus corpos e territórios, e para os quais nem a ficção científica é convocada para colocá-los em cena. (BARBOSA, 2020, p.2)


Então, é com base nesta constatação cirúrgica que o Jorge nos coloca, que eu e algumas/alguns outras/os jovens, colaboradoras/es do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro, temos buscado atuar e construir em tempos de pandemia no Brasil. Além de desmobilizar o funcionamento dos três espaços que ocupa – a sede do Observatório e o Galpão Bela Maré, na Maré, e a Arena Carioca Dicró, na Penha –, o Observatório se propôs a incidir pública e politicamente por meio da comunicação e da produção de conteúdos informativos sobre o comportamento desse vírus, que vem mobilizando o mundo na busca por controlá-lo, para e a partir de moradoras/es de favelas e periferias. O próprio Jorge segue frisando que o que estamos vivendo diante da pandemia está longe de uma ficção e traz consigo muitas marcas de uma desigualdade escancarada, por mais que muitas das narrativas hegemônicas insistam em revelar apenas a face de que a COVID-19 é uma doença que não escolhe classe social, território de origem, raça/etnia, gênero etc.


Então, não podemos contar com ficção para vislumbrar o que pode ou não poderá nos aterrorizar ou nos acalentar. Só nos resta trazer o mundo da vida, que não é ficção, para centro de nossas preocupações e inconformidades. É isso, trazer a dramática, ou melhor, a trágica situação para nossa condição de humanidade urbana, hoje tão marcada pelas desigualdades sociais, raciais e étnicas, como a brasileira. Se do Príncipe de Mônaco ao  funcionário de operações do metrô de São Paulo − passando por senadores, generais, professores etc. − todos possam sofrer com a contaminação do vírus, é preciso reparar as condições de atenção, proteção e cuidados aos homens e mulheres mais vulneráveis, não só por conta da idade ou de um histórico de saúde, mas sim de sua condição social de corpo e território.

(BARBOSA, 2020, p.1)


Olhando atentamente para condições sociais de corpo e território, diariamente, nos reunimos online com uma pessoa especialista para pensar como podemos juntas/os criar conteúdos para moradoras/es de favelas e periferias receberem em seus whatsapps. Com esse objetivo, têm sido produzidos memes e áudios, que, com o apoio de uma produtora parceira, estão se transformando também em vídeos. Isso tudo  para que as informações sobre as formas de precaução cheguem com mais conforto para essas pessoas, para nossas/os vizinhas/os, para nossos familiares e para nossas/os amigas/os, para a moça da caixa da padaria, para o mototaxista, para o atendente do açougue, para a balconista do armarinho, para a criança, para a população idosa moradora de favelas, e por aí vai.


Por falar nas pessoas próximas, moradoras/es de favelas e periferias às/aos quais queremos mobilizar em ações de prevenção e enfrentamento, sou levada a pensar em nosso cotidiano, na vida de todo dia e nas relações aí colocadas:


A morte, as doenças, o nascimento, os êxitos e as derrotas constituem os acontecimentos calculados da vida de cada dia. Nesta, o indivíduo cria para si relações, baseado na própria experiência, nas próprias possibilidades, na própria atividade e daí considerar esta realidade como o seu próprio mundo.

(KOSIC, 1985, apud SILVA, 2009, p.157)


Tudo isso para apresentar aqui o meu “próprio mundo”, o lugar a partir de onde me coloco no mundo social e a partir do qual busco experimentá-lo, atuar e contribuir: território da minha ação neste tempo, das minhas relações, das minhas afetações e do meu engajamento.


Minha terapeuta, em diálogo online, me encorajou a “colocar o amor em ação” e seguir buscando em minhas conexões formas de sentir, crescendo e superando esse nosso tempo e seus desafios. Por aqui, tenho investido muito nas conexões e construções coletivas e, nesse processo, sempre me lembro o quanto as práticas culturais das favelas e periferias podem nos ensinar e inspirar no devir de sentir esperança e operar na confiança de que juntas/os podemos enfrentar o que está colocado e o que está por vir. Lefebvre (1991) vai discutir a ideia de uma sociedade capitalista que impõe à vida um cotidiano marcado pela lógica do consumo e da troca, transformando o lugar da vida em lugar de opressão, de espoliação do indivíduo. Indivíduo esse inserido em uma sociedade marcada por relações de trabalho e de trocar, do ter em detrimento do ser (SILVA, 2011, p.31).


Mas Lefebvre também nos lembra do contraponto, “no devir, como possibilidade criativa de reproduzir a vida diante das imposições postas, como capital, salário e dinheiro, pela sociedade” (SILVA, 2011, p.31). Assim, nós, jovens colaboradoras/es do Observatório, ameaçadas/os, desde onde operamos no mundo e com as pessoas com as quais dividimos a vida e a lida cotidiana, não temos tempo e nem chance de paralisar. É preciso seguir! Sempre foi necessário seguir! Mesmo sem as condições mínimas necessárias para viver com dignidade, favelas, periferias e suas/seus moradoras/es nos ensinam que a resiliência e a inventividade são da natureza da constituição desses territórios e suas/seus sujeitas/os. É da dinâmica comunitária favelada, pautada por relações de convivência, de reprodução dos modos de vida cotidianos de suas/seus moradoras/es, fomentadora de relações solidárias de vizinhança, união e esperança.


Sigo com a convicção de que, a partir do cotidiano [1] e em comunidade, vamos continuar enfrentando e buscando formas de prosseguir, nos sentindo fortes o suficiente para não sucumbir ao vírus; às preocupações com todas as pessoas queridas e também, muito!, com as populações pobres do Brasil, que, vulnerabilizadas, muitas vezes vivem em casas sem respiros e têm pouco ou quase nenhum acesso aos mínimos direitos fundamentais (ao trabalho, ao saneamento básico, à saúde e à educação públicas etc.); ao medo de o sistema de saúde colapsar; à angústia sobre as possibilidades de sairmos dessa situação, enquanto país, com uma economia ainda mais estraçalhada. Vai ser com e a partir do nosso conjunto social (SILVA, 2009),  nesse espaço-tempo da realização da vida (LEFEBVRE, 1991), que vamos nos energizar e seguir, com muita convicção de que, em breve, voltaremos a viver possibilidades de festejar e abraçar, mesmo que ainda reste muito pelo que batalhar!  


Estamos lidando com nossos medos e angústias, procurando nos fortalecer nas conexões possíveis às imposições que o isolamento físico nos traz e encontrando sentido nos espaços e formas de ação coletivos, para não deixar o desespero e o temor tomarem conta. Temos lidado com os silêncios possíveis em nossas casas, e com o excesso de perguntas na cabeça, buscando segurar as pontas do desespero. O que eu vejo ao meu lado e em volta de mim são pessoas que, de formas diversas, buscam respirar fundo e assumir a responsabilidade geracional deste tempo, construindo caminhos possíveis para a tecnologia nos aproximar e reunir nessa convocação urgente do agora, para que possamos operar como Gaia, como Pachamama, como comunidade, colocando o amor em ação. 


Notas:

[1] “Um momento composto de momentos (necessidades, trabalho, diversão – produtos e obras – passividade e criatividade – meios e finalidades etc.) interação dialética da qual seria impossível não partir para realizar o possível (a totalidade dos possíveis) (LEFEBVRE, 1991, p.20)".


Referências:

BARBOSA, Jorge Luiz. Uma quarentena de direitos para as favelas e periferias. Disponível em: https://of.org.br/acervo/artigos/uma-quarentena-de-direitos-para-as-favelas-e-as-periferias/?fbclid=IwAR2nS8zmu5UN13c3qTuv8K0_UtiQNKLqLvQLbc1uVUTjSMa0eMoW8b0qdVE


LEFEBVRE, Henri. A vida cotidiana do mundo moderno. São Paulo: Ática, 1991.


SILVA, Eliana Sousa. O contexto das práticas policiais nas favelas da Maré: a busca de novos caminhos a partir de seus protagonistas. 2009. Tese (Doutorado em Serviço Social) Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, PUC-RIO, Rio de Janeiro, 2009.


SILVA, Isabela Souza da. Lazer e favela: uma análise sobre o cotidiano no morro Dona Marta/RJ. 2011. Monografia (Bacharelado em Turismo) Curso de Bacharel em Turismo, UNIRIO, Rio de Janeiro, 2011.


*Diretora do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro

Doutoranda em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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