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Solidariedade e conhecimento, as redes que importam

Sandra Sanches*


Nada será como antes. O impacto do coronavírus na ordenação econômica, política e social será enorme e vai durar anos, já não há como ter dúvida disto. Enquanto cientistas se debruçam sobre o desafio de controlar a doença, buscando um tratamento ou uma vacina, universidades, centros de pesquisa, pensadores traçam cenários de como será o mundo depois da pandemia. Este é o exercício que temos feito aqui no CRio, o think tank da ESPM, abordando os mais diversos aspectos da questão: médico, epidemiológico, sanitário, científico, econômico, social, político, antropológico... No presente artigo, gostaria de abordar o que chamo de redes de solidariedade e conhecimento.

Num país como o Brasil, de enormes carências e indicadores precários em várias áreas básicas, a organização social muitas vezes se articula para suprir o papel do Estado. Historicamente encontramos estes movimentos, associados a ordens religiosas, entidades de classe, projetos assistencialistas e, mais recentemente, organizações sociais empenhadas em causas, tanto locais quanto universais, na defesa de direitos básicos e proteção do Meio Ambiente. Uma das manifestações mais efetivas neste sentido foi criada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, nos anos 80; ainda no curso do governo militar, com a campanha contra a fome.

A ação mobilizou a sociedade civil e conseguiu atender necessidades básicas de uma população enorme que sobrevivia abaixo da linha da miséria, sem acesso a saneamento, moradia, educação e alimentação. Antes de ser um projeto de governo, o combate à fome foi no Brasil uma ação solidária da sociedade organizada. O sucesso da empreitada talvez explique como as organizações de proteção social e ambiental se multiplicaram nos últimos anos. Muitas delas com o respaldo de instituições internacionais. Apesar das tentativas de ataques a alguns desses movimentos, especialmente as ONGs dedicadas à proteção da floresta, são as organizações sociais que se apresentam na linha de frente do combate ao Coronavírus.

A mobilização de cientistas, médicos e profissionais de saúde são um bom exemplo, compensando, muitas vezes, a desarticulação do poder público. O corte de verbas na área da ciência, exposto de forma dramática, não impediu que os profissionais se apresentassem ao trabalho ou se esforçassem para não interromper pesquisas fundamentais para o ser humano. A população reconheceu o empenho, se mobilizando para oferecer equipamentos, alimentação e até abrigo a quem arrisca a própria vida para salvar vidas. Começou devagar, regionalmente, com Ongs e associações que trabalham no Terceiro Setor identificando as carências mais agudas da população.

O mesmo movimento se repetiu em outros setores. No Rio, por exemplo, os hotéis, sem hóspedes no meio da pandemia, ofereceram suas instalações para médicos descansarem entre os plantões. Restaurantes oferecem refeições. Cenas de aplausos a estes profissionais certamente serão belas marcas desses tempos difíceis. Empresários que dirigem grandes empresas, que foram construídas nesse país, também se mobilizam em nome da união e solidariedade. O anúncio feito pelo Banco Itaú no ultimo 14 de abril – de mais de R$ 1 bilhão de recursos para o combate ao Coronavírus - abriu espaço para que outro bancos e empresas abram seus cofres em prol do bem comum. O anúncio representa a maior doação feita pelo setor privado no Brasil para combater a pandemia até o momento.

Surgiram outros movimentos, nem tão visíveis, que demonstram ser eficientes no combate à doença. Em diversas comunidades, moradores se organizaram para levar informação aos mais remotos endereços, oferecer material de limpeza e alimentos. E socorro em caso de doença. Na Maré, a comunidade se articulou para botar uma ambulância a serviço dos moradores. No caso de uma emergência, uma brigada de voluntários ampara o doente e a família. Parece pouco, mas o valor dessas iniciativas na vida de quem precisa é inestimável. O Rio, mais do que nunca, está mostrando que a colaboração e o compartilhamento – de bens ou amor - moram aqui.

Entidades como o Viva Rio mostram seu poder de organização e exibem a força da solidariedade do morador do Rio de Janeiro. As entidades sociais serão importante alicerce para a saída da crise gerada pelo desmonte da economia e do emprego. São elas que sabem identificar as áreas mais atingidas e o auxílio mais urgente. Moradores têm se mobilizado, por exemplo, para proteger pequenos negócios e o rendimento de vendedores ambulantes, que ficaram sem clientes e sem renda, com o afastamento social. Uma contribuição importante para a recuperação da economia será mapear, fortalecer e dar recursos para que estas entidades ofereçam assistência e a possibilidade de reerguimentos para as populações mais atingidas.

A contribuição da universidade, neste sentido, será enorme porque pesquisadores, pensadores e cientistas sociais saberão doam conhecimento para essas entidades operarem além do assistencialismo, oferecendo tecnologia e informação, ferramentas modernas da Economia Criativa para dotar a sociedade de recursos da nova economia. Que as redes de conhecimento trabalhem junto com as redes de solidariedade, num esforço que não pode deixar ninguém de fora. Num esforço que ilumine o caminho para a solução da pandemia e dos problemas – estruturais – que ela tem exposto.

*Líder do CRio, jornalista e pesquisadora

do Laboratório de Economia Criativa da ESPM

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