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O Fim dos Cinemas?

Marcelo França Mendes*


O verão de 2020 pode ter sido o ocaso das salas de cinema como conhecemos, uma atividade criada e desenvolvida como um hábito coletivo. Nas últimas décadas esses espaços enfrentaram diversos adversários poderosos, como a televisão, o vídeo cassete e depois o DVD e Blu-ray, os canais de tv pagos, a internet como um todo e finalmente o streaming de filmes e séries, além de todas as outras questões econômicas, como o aumento do custo do metro quadrado e o preço da energia elétrica. A cada novo desafio uma nova adaptação pela sobrevivência. A pandemia da Covid-19 corre o risco de ser um ponto final nessa guerra, que pode marcar uma derrota irremediável das salas e com isso determinar uma nova mudança na maneira de realizar, promover e ver obras audiovisuais.


Vamos aos pontos. Os cinemas estão fechados em todo o mundo e com isso os exibidores estão, por consequência óbvia, sem faturamento. Não vendem ingressos, pipocas ou publicidade enquanto seus gastos continuam. Despesas como aluguéis, iluminação, segurança, manutenção de equipamentos e impostos sobre tudo isso seguem gerando despesas, ainda que com valores muito menores. Mas o que é um valor reduzido quando não a receita é zero? Há a questão dos funcionários, que serão mantidos por algum tempo por humanidade ou porque treinar novos custaria mais tempo e dinheiro. Mas se o isolamento social continuar por muitos meses não haverá alternativa a não ser demiti-los, gerando novos custos de demissão e posteriormente, quando retomada a atividade, investimentos em treinamento. O resultado sob qualquer ponto de vista é um enorme endividamento de todo o circuito exibidor e quanto mais tempo parado, maior a dívida.


Como atividade coletiva, cinemas, teatros, casas de shows e similares devem ser as últimas a voltar a funcionar. Não há analista sério que acredite que esse tempo seja inferior a quatro ou cinco meses, provavelmente muito mais. Mas mesmo que tenhamos os cinemas abertos em julho deste ano no Brasil, o que pessoalmente acho completamente fora de propósito, podemos considerar que esta seria uma retomada da atividade? Após tanto tempo fechadas em casa e com medo de contaminação, após milhares de mortes, as pessoas irão se aglomerar em filas e ficar espremidas em um mesmo local fechado com dezenas de outras e ainda pagar por isso? Mesmo considerando que sim, teriam dinheiro para essa iguaria? Cinema é uma atividade que se baseia no hábito do espectador, sobretudo no Brasil onde uma pequena parcela da população vai ao cinema. Assim, a reabertura das salas após longa inatividade pode acabar gerando, paradoxalmente, o seu próprio fechamento.


Muito provavelmente os cinemas que sobreviverem a meses fechados irão encarar uma retomada lenta, o que pode acarretar cenário ainda mais difícil pois as despesas aumentariam exponencialmente enquanto as receitas seriam residuais por um longo tempo - o que no lugar de proporcionar o pagamento das dívidas contraídas durante seu fechamento fará com que elas aumentem. E, por conclusão, muitos desses cinemas se juntarão aos outros que não abriram após a pandemia, encerrando as atividades.


Por fim, as heroicas salas que resistirem aos meses de inatividade e aos meses de sub funcionamento podem lidar com a falta de filmes, porque as produções também estão paradas e permanecerão assim por longo tempo. Uma produção grande leva anos para ser realizada, precisa da confiança de investidores de que aquela é uma atividade rentável e isso ninguém poderá garantir. Por outro lado, produções pequenas e rápidas em geral não tem poder de atração de grande público e, logo, não resolvem a equação.


Com o caixa baixo, dívidas e sem atrair grande público, as salas, majoritariamente localizadas em shoppings centers passariam a sofrer a pressão de seus senhorios, pois o metro quadrado da área do cinema custa caro, quantas lojas cabem em um cinema? Enfrentando dificuldades para pagar os aluguéis correntes, com dívidas que certamente incluem aluguéis passados e sem atrair consumidores em número significativo, os Shoppings muito provavelmente buscarão outras atividades atratoras de público, com maior rentabilidade e menor risco.


Se não houver investimentos governamentais e compreensão de credores, inclusive com perdão de dívidas, a atividade morrerá em um curto espaço de tempo. Para que isso não ocorra os exibidores precisarão de capital de giro em grande volume, perdão de dívidas, como dito, redução de cobranças sobre custos fixos, como o cálculo de cobrança da luz, IPTU, ISS, aluguel e mesmo do percentual de bilheteria dos filmes, além de vultosos investimentos em campanhas de marketing e a redução do preço médio do ingresso. Só um conjunto de medidas negociadas com a própria cadeia da atividade e com as diversas esferas governamentais pode impedir um futuro que me parece inexorável. Acho complexo.


Caso esse futuro distópico chegue como parece estar chegando, um mundo onde os cinemas virariam abrigos pós hecatombe descrito em tantos filmes e séries-catástrofe, qual seria a alternativa para se manter minimamente a atividade de assistir filmes coletivamente em uma sala escura em uma tela gigante?


Uma tendência que já vinha sendo apontada há algum tempo com timidez pode se intensificar. Os cinemas poderiam se transformar em “salas-vitrine”, custeadas pelas próprias produções e com custos previstos no seu orçamento, uma verdadeira inversão do que ocorria na era dos estúdios hollywoodianos, quando os filmes eram produzidos diretamente para o perfil das salas que o próprio estúdio detinha como forma destas venderem mais ingressos. O objetivo de se fazer um filme era nenhum outro além da bilheteria do cinema. No futuro, a bilheteria poderá pouco importar. Poderá caber às salas apenas promover os filmes, destacando-os em meio a milhares de opções, para que tenham seu consumo intensificado em outros meios. O cinema, então, passaria a ser meramente outro elemento de marketing, como as publicidades nas diversas mídias disponíveis são hoje em dia. Escolher a “sala-vitrine” será como escolher o canal de televisão ou o site para veiculação do trailer e da campanha visual das produções. Já não estávamos longe disso, basta notar a estratégia da NetFlix com o filme “Roma” ou “O Irlandês”. O que a pandemia pode fazer é acelerar essa mudança e de forma provavelmente irreversível.


Certamente teríamos as “salas-gourmet”, como Cinematecas e a salas de centro culturais. Mas estas têm e sempre terão um papel residual e, portanto, pouco eficiente em manter ou retomar um hábito que terá ficado abandonado por muito tempo, se considerarmos o volume de público que essas salas estimulam. Ninguém entra em uma Cinemateca do nada. É preciso primeiro gostar de ver um filme em tela grande, é preciso saber o que é essa experiência. E isso começa “num cinema perto de você”, que não existirá.


Haverá ainda os cinemas em parques de diversão ou feiras, exibindo grandes produções em telas gigantescas, em eventos muito provavelmente onde o espectador terá que passar por desinfecção. Ninguém imagina que uma Disneyworld deixará de existir, tem força para resistir a tempos difíceis e longos. Talvez tenhamos que pegar um avião para a Flórida ou para o Beto Carreiro World para ver cinema como deve ser visto... Curiosamente, o cinema voltaria ao seu início novamente, pois nasceu justamente em locais assim.


Mas o fim do cinema como atividade coletiva acarretará o enterro de milhares de filmes que foram criados para esse meio. É preciso notar que há uma enorme diferença entre ter sua audiência fechada numa sala com toda sua atenção voltada para uma tela grande e tê-la cambaleante, fluida e variável ao simples aperto de um botão, cuja atenção pode ser alterada por uma campainha que toca, por outra pessoa no mesmo ambiente em outra atividade, pelo WhatsApp ou Facebook que nos chama. Milhares de filmes foram criados supondo que teriam um tempo para conquistar o espectador, necessitam desse tempo, dessa disponibilidade. Esses ficarão relegados aos estudiosos e fãs, em número cada vez menor, nas Cinematecas. Mal comparando, Shakespeare era muito popular no seu tempo. Há trinta anos ainda enchia teatros pequenos. Hoje dificilmente atrai mais que seu próprio universo de atores e criadores. Bergman, Antonioni, Glauber e tantos outros serão para o cinema como Shakespeare é para o teatro. Os será que já são?


Na verdade, já estamos vivendo toda a situação descrita acima, mas ainda temos dois mundos. No futuro poderá haver só um. E nesse um, onde o cinema passará a ser solitário e visto em telas pequenas, por que realizar um filme com grandes cenários e imagens espetaculares para ser visto exclusivamente em computadores, tablets, celulares ou tvs? Pior que isso, tais filmes sequer atrairiam a atenção pois é necessário algum tempo para entender e admirar as imagens de um “Lawrence da Arábia”, por exemplo. Assim, além de não haver necessidade, ter grandes cenários será um ônus e não um bônus audiovisual. Cada vez mais a linguagem cinematográfica terá que caminhar lado a lado com a publicitária pois terá que atrair de imediato sua audiência.


Estamos às portas de uma mudança dramática da indústria e não creio que seja positiva para o cinema enquanto arte. Tomara que esteja redondamente enganado e ria desse texto daqui a algum tempo. De toda a forma, fazer audiovisual continuará cada vez mais necessário, pois quase tudo é, e continuará sendo cada vez mais, áudio e visual. Mas inevitavelmente precisaremos repensar os modos de fazer e promover os filmes em compatibilidade com um novo tempo.


*Sócio fundador do Grupo Estação , ex-Diretor de investimentos da RioFilme

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