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Negócios cariocas propõem novas relações com os alimentos para um futuro sustentável

*Isabel Barcellos


No início do mês, o Programa Mundial de Alimentos (PMA), das Nações Unidas, recebeu o prêmio Nobel da Paz. A decisão pode ser interpretada como um alerta ao planeta sobre o impacto sem precedentes do coronavírus. Projeções obtidas pelo colunista Jamil Chade, do portal UOL, "indicam que o salto no número de famintos nos locais onde a agência (da ONU) trabalha poderia ser de mais de 80% até o final de 2020, atingindo um total de 270 milhões de pessoas em 83 países".


Cenários como este apontam que os hábitos alimentares de uma nação podem revelar, e muito, quais caminhos esperar para seu desenvolvimento. No Brasil, por exemplo, todos os anos mais de onze milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas, segundo dados do Centro de Agroindústria de Alimentos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Pensar cidades mais sustentáveis, preparadas para enfrentar o pós-Covid, passa também pela alimentação, segundo Thiago Nasser, um dos fundadores da Junta Local, negócio carioca criado em 2014 e que consiste em um coletivo diverso e engajado no âmbito da alimentação sustentável e tem como principais objetivos fortalecer o elo entre o produtor e o consumidor e também, ter um propósito, diferente da grande indústria alimentar.


Além da possibilidade de "fazer a feira" online, há também a feira presencial promovida pela Junta Local. “A importância desta relação é dar uma cara para quem produziu a comida e não invisibilizá-los como é feito por muitas grandes empresas”, explica Nasser.

Os "ajuntados, como os integrantes do coletivo se identificam, prezam pela conscientização. Diálogos sobre temas relevantes como meio ambiente, consumo, comida de qualidade, por exemplo, costumam ter espaço nos encontros promovidos e também nas feiras e assembléias. “O intuito é permitir que as pessoas tenham acesso não somente a uma maior variedade de comida, mas também, de informação. A feira foi uma idéia de criar um espaço para os consumidores conhecerem pessoalmente os produtores presentes na plataforma online, especialmente, por se tratar de comida", destaca.


Se a Junta Local quer promover esse encontro entre produtor e consumidor, outros movimentos nesta cadeia produtiva se organizam para um desenvolvimento sustentável do Rio de Janeiro. O que fazer com os resíduos alimentares, por exemplo? Compostagem, técnica que consiste no processo de transformação do lixo orgânico em adubo, desafogando o aterro sanitário e fechando o ciclo natural.


Assim surge o Casca, um serviço de coleta e tratamento de resíduos orgânicos que busca retribuir seus clientes com alimentos artesanais de produtores locais, fomentando a economia local. O foco da empresa é descartar os resíduos orgânicos corretamente através da compostagem, minimizar o impacto ambiental das operações cotidianas dos cidadãos, apoiar produtores locais e participar de iniciativas socioambientais. “Implementar nos processos que ocorrem no dia a dia,maneiras de se fazer um descarte ou reaproveitamento dos recursos utilizados”, explica Breno Cardoso, co-fundador da iniciativa.


Criado através de um projeto de faculdade, o intuito inicial dos sócios era atender somente a região serrana do Rio, mas o sucesso da iniciativa fez com que mais regiões passassem a ser atendidas. As coletas atualmente são feitas prioritariamente na Zona Sul, nos bairros Botafogo, Humaitá, Lagoa, Copacabana, Ipanema, Leblon, Jardim Botânico e Gávea.


Outra iniciativa que atua no setor, é a Aliança Pela Alimentação Adequada e Sustentável. Trata-se de uma coalizão que reúne organizações da sociedade civil, associações, coletivos, movimentos sociais, entidades profissionais e pessoas físicas que desenvolvem ações para defender o interesse público com o objetivo de desenvolver e fortalecer ações coletivas que contribuam para a realização do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA). As atividades desta iniciativa buscam o avanço de políticas públicas para a garantia da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e da Soberania Alimentar no Brasil.

Na avaliação de uma das integrantes desta coalizão, Maria Birman Cavalcanti, iniciativas como a da Junta Local ou do Grupo Casca são importantes para promover as mudanças necessárias. “Certamente precisamos de circuitos curtos de produção de consumo, de mais agricultura de base agroecológica, de uma distribuição equitativa de estabelecimentos de comercialização de alimentos saudáveis no território da cidade. Além disto, mais do que "informação", é importante que esse seja um tema em pauta na sociedade. Como garantir as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras também garantirem as suas necessidades? Essa me parece a pergunta central”, analisa.

* Isabel Barcellos, graduanda do curso de jornalismo da ESPM e integrante da equipe de comunicação do cRio ESPM.

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